A relação dos brasileiros com o crédito está passando por uma transformação silenciosa e ela tem rosto jovem. A chamada Geração Z, formada por pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010, cresceu em um ambiente completamente digital, marcado por aplicativos financeiros, compras online, "pix parcelado", bancos digitais e acesso quase instantâneo ao crédito. O resultado é uma mudança profunda na forma como essa geração consome, financia e se relaciona com dívidas.

Diferentemente das gerações anteriores, que associavam crédito principalmente à conquista patrimonial — como financiar um imóvel ou um automóvel — os jovens de hoje enxergam o crédito também como ferramenta de experiência, conveniência e flexibilidade financeira. O problema é que essa democratização do acesso veio acompanhada de novos riscos.

Dados recentes da Serasa mostram que os jovens entre 18 e 25 anos foram o grupo que mais cresceu nas renegociações de dívidas no Brasil em 2025, com alta de 49% em relação ao ano anterior. Mais de 1,5 milhão de jovens dessa faixa etária negociaram pendências financeiras apenas nos primeiros sete meses do ano.

Ao mesmo tempo, essa geração também é a que mais busca crédito atualmente. O acesso facilitado por fintechs e bancos digitais criou um cenário em que o cartão de crédito, o crédito pessoal e as soluções de parcelamento passaram a fazer parte da rotina desde muito cedo. Ainda segundo o levantamento da Serasa, o número de solicitações de cartão de crédito cresceu 111% no país, sendo que mais de um terço dos pedidos vieram de jovens entre 20 e 29 anos.

O ponto central é que a Geração Z não vê o crédito da mesma forma que os Millennials ou a Geração X. Para os mais velhos, a dívida costumava representar um compromisso de longo prazo e, muitas vezes, algo a ser evitado. Já os jovens atuais convivem com o crédito de maneira mais fluida e cotidiana. A lógica é simples: se tudo está a um clique de distância, o dinheiro também parece estar.

Essa mudança de mentalidade está diretamente ligada à tecnologia. Hoje, um jovem consegue abrir conta, solicitar limite, contratar empréstimos e parcelar compras em poucos minutos pelo celular. A jornada digital reduziu drasticamente as barreiras de entrada do sistema financeiro. Além disso, as redes sociais passaram a exercer forte influência nas decisões de consumo e educação financeira.

TikTok, YouTube e Instagram se tornaram fontes relevantes de informação sobre investimentos, score, organização financeira e até renegociação de dívidas. A educação financeira deixou de acontecer apenas dentro de casa ou nas agências bancárias. Ela agora é distribuída por influenciadores, criadores de conteúdo e especialistas digitais, nem sempre com profundidade suficiente.

Existe também uma característica geracional importante, a busca por imediatismo e experiências. Muitos jovens priorizam viagens, tecnologia, mobilidade e bem-estar em vez da construção patrimonial tradicional. Isso ajuda a explicar por que modalidades mais flexíveis, como assinatura, crédito rotativo, BNPL (buy now, pay later) e parcelamentos digitais ganharam força entre esse público.

Mas há um fator econômico que não pode ser ignorado. A Geração Z entrou na vida adulta em um contexto de inflação elevada, juros altos e custo de vida crescente. Muitos jovens trabalham na informalidade, em empregos temporários ou na economia de aplicativos, o que gera renda variável e menor previsibilidade financeira. Em paralelo, o sonho da casa própria ou do carro financiado se tornou mais distante para parte dessa geração.

Não por acaso, cresce também o interesse por modelos alternativos de aquisição e planejamento financeiro. Um levantamento citado pela ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios) mostrou que 46% dos participantes de pesquisas sobre consórcio já pertencem à faixa entre 18 e 29 anos, indicando uma busca maior por modalidades sem juros e com previsibilidade de pagamento.

Regionalmente, Sul e Sudeste apresentam diferenças relevantes nesse comportamento. O Sudeste, por concentrar maior bancarização, renda média e presença de fintechs, tende a liderar o uso de soluções digitais de crédito e serviços financeiros inovadores. Já o Sul apresenta um perfil historicamente mais conservador em relação ao endividamento, embora também acompanhe a digitalização acelerada do setor financeiro.

Ainda assim, em ambas as regiões, percebe-se uma tendência comum, em que os jovens estão mais dispostos a negociar dívidas rapidamente e a utilizar ferramentas digitais para reorganizar a vida financeira. Isso representa uma mudança cultural importante. Diferentemente de gerações anteriores, que muitas vezes evitavam discutir problemas financeiros, a Geração Z demonstra menos resistência em buscar renegociação e soluções online.

O próprio mercado financeiro percebeu esse movimento. Fintechs de crédito digital seguem ampliando suas operações e base de clientes. Pesquisa da PwC Brasil e da Associação Brasileira de Crédito Digital de 2025 mostrou que o volume de crédito concedido por fintechs cresceu 68% em 2024, alcançando R$ 35,5 bilhões.

Nesse cenário, o desafio das instituições financeiras deixou de ser apenas conceder crédito. Agora, será fundamental oferecer inteligência financeira, personalização e educação. Ferramentas de análise comportamental, inteligência artificial e modelos preditivos devem ganhar ainda mais espaço para compreender hábitos de consumo e risco dessa nova geração.

A relação da Geração Z com o crédito é menos baseada em posse e mais em acesso. Menos ligada ao tradicionalismo bancário e mais conectada à conveniência digital. O problema é que facilidade sem educação financeira pode se transformar rapidamente em inadimplência. Por outro lado, existe um sinal positivo: os jovens também demonstram maior abertura para renegociar dívidas, reorganizar finanças e buscar informação. Isso indica que a nova geração não necessariamente rejeita planejamento financeiro, ela apenas o faz de uma maneira diferente das anteriores.

O mercado financeiro, as fintechs e as empresas de crédito precisarão compreender rapidamente essa mudança. Afinal, entender como a Geração Z consome, financia e se endivida será essencial para desenhar os próximos produtos financeiros do país.

Fonte: VCRP

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