A história recente do agronegócio brasileiro é marcada por ciclos, alguns de expansão vigorosa, outros de ajuste. O momento atual, no entanto, foge ao padrão. O setor atravessa uma convergência de pressões que o coloca diante de um dos períodos mais desafiadores de sua trajetória. E, nesse contexto, a próxima edição da Agrishow, em Ribeirão Preto, não será apenas uma vitrine de tecnologia: será um termômetro.
 
O cenário combina fatores que, isoladamente, já exigiriam atenção. Juntos, elevam o nível de complexidade. A instabilidade energética internacional impactou diretamente o custo de insumos, pressionando margens. Ao mesmo tempo, o recuo nos preços das commodities agrícolas reduziu a capacidade de reação do produtor. Soma-se a isso um ambiente macroeconômico adverso, marcado por juros elevados, os mais altos do mundo, e restrições fiscais que limitam o alcance e a competitividade das linhas de crédito. Isso sem contar um dos grandes gargalos estruturais do setor: os números pífios de seguro rural, o pior nível em 10 anos, com algo em torno de 5% da área plantada, enquanto em países como os EUA a cobertura chega a 90%.
 
No campo, os efeitos das mudanças climáticas deixaram de ser projeção e passaram a ser realidade concreta, interferindo na produtividade, no planejamento e na previsibilidade das safras. Produzir, que nunca foi simples, tornou-se ainda mais desafiador.
 
Esse conjunto de variáveis desenha uma equação difícil: custos em alta, receitas pressionadas e acesso a financiamento mais restrito. É nesse ambiente que o setor se reúne na maior feira de tecnologia agrícola da América Latina. Mas há um outro componente, menos tangível e igualmente relevante: o ambiente reputacional.
 
Como já demonstrado em análises recentes sobre a comunicação do setor, o agro brasileiro convive hoje com uma dualidade de percepção. Em eventos como a Agrishow, uma das maiores feiras do mundo em tecnologia agrícola, é apresentado como potência tecnológica, inovadora e eficiente. Já em fóruns internacionais, especialmente os ligados à agenda climática, como a COP 30 realizada no Pará, surge frequentemente sob uma ótica crítica, associado a pressões políticas e ambientais.
 
Esse contraste não é trivial. Ele evidencia que, além dos desafios econômicos e produtivos, o setor também está inserido em uma disputa de narrativa. E essa disputa ocorre justamente em um momento em que temas como segurança alimentar e transição energética ganham centralidade global.
 
O Brasil reúne ativos concretos que o credenciam a protagonizar esse debate com legitimidade. O país possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com cerca de 50% de fontes renováveis, frente a uma média global de pouco mais de 10%, e uma geração elétrica que alcança 90%, a maior entre os países do G20. No campo, o avanço também é expressivo: desde a década de 1980, a produção de grãos cresceu mais de 500%, enquanto a área plantada pouco mais de 100%, resultado direto da incorporação de tecnologias como o plantio direto, a agricultura de precisão e o uso de bioinsumos. Esses ganhos de produtividade pouparam 147 milhões de hectares, cerca de 50% a mais do que a área de grãos cultivada hoje. O bom desempenho se reflete na economia: o agronegócio foi responsável por quase um terço do crescimento do PIB em 2025, liderou a expansão setorial e garantiu um superávit comercial robusto, sem o qual o país registraria déficit significativo.
 
Ainda assim, esses atributos nem sempre se traduzem em reconhecimento proporcional no cenário internacional. A Agrishow deste ano, portanto, acontece em uma encruzilhada. De um lado, um ambiente econômico e produtivo pressionado. De outro, um contexto reputacional que exige maior capacidade de lidar com a sociedade e com o mundo.
 
Mais do que apresentar máquinas, soluções e tecnologias, o setor será chamado a reafirmar sua relevância, econômica, social e ambiental. Momentos desafiadores também são momentos de definição. Eles expõem fragilidades, mas também evidenciam a resiliência e a capacidade de adaptação. O agronegócio brasileiro já demonstrou, ao longo de sua história, habilidade para evoluir diante de adversidades.
 
A questão que se coloca agora não é apenas como atravessar esse ciclo, mas como sair dele mais forte, não apenas em produtividade, mas também em posicionamento. A Agrishow, mais do que nunca, será palco dessa resposta, mostrando que o Brasil não apenas abastece sua própria população, cerca de 215 milhões de habitantes, como também desempenha papel estratégico na segurança alimentar global, contribuindo para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. 
 
Maurílio Biagi Filho, empresário e presidente de honra da Agrishow
 
Fonte: Outras Palavras Comunicação Empresarial

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