Em muitas regiões do Brasil, a desigualdade não é um conceito abstrato. Ela tem endereço, rotina e consequência. Está no acesso limitado à educação de qualidade, na ausência de espaços culturais, nas oportunidades que não chegam e, muitas vezes, na sensação de que o futuro já vem desenhado antes mesmo de começar.

Para quem cresce dentro dessas realidades, o caminho costuma ser mais desafiador, tendo em vista que as escolhas são constantemente impactadas por necessidades que vão muito além do básico, como acesso, incentivo e referências. 

É justamente nesse ponto que o terceiro setor começa a fazer diferença. Não como uma resposta imediata ou isolada, mas como presença e atuação contínua.

Organizações sociais atuam onde vemos lacunas históricas e, principalmente, onde existem pessoas que precisam ser vistas, ouvidas e incluídas em novas possibilidades. Mais do que levar soluções prontas, chegam dispostas a entender, construir junto e permanecer. 

Isso faz diferença, porque transformar uma realidade não acontece de forma rápida. Exige consistência, vínculo e confiança. É preciso criar espaços onde crianças possam experimentar, aprender e se reconhecer. Onde jovens consigam avaliar diferentes caminhos, antes considerados distantes. E onde famílias passam a enxergar alternativas que nunca estiveram ao alcance.  

Esse trabalho, muitas vezes silencioso, vai, aos poucos, redesenhando o território e realidades. Comunidades que antes conviviam com a escassez de oportunidades começam a construir outras narrativas, e isso transforma não só trajetórias, mas também a forma como essas pessoas se enxergam dentro da sociedade.

Ainda assim, cabe nos perguntarmos: por que esse trabalho ainda é visto como complementar? 

O terceiro setor já ocupa um papel central em áreas como educação e saúde. Segundo a pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), realizado em parceria com a Sitawi e o Movimento por uma Cultura de Doação, o setor representa cerca de 4,27% do PIB brasileiro, movimenta mais de R$ 220 bilhões por ano e gera aproximadamente 6 milhões de empregos. Mais do que isso, sustenta, na prática, parte importante do desenvolvimento social do país. Mesmo assim, segue sendo tratado, muitas vezes, como apoio, e não como estratégia. 

Essa percepção precisa mudar. A transformação que acontece nas comunidades não pode depender apenas de quem está diretamente envolvido. Ela exige uma sociedade mais participativa, empresas mais comprometidas e um olhar direcionado para o fortalecimento dessas iniciativas, além de parcerias, investimentos a longo prazo e reconhecimento. 

Também é preciso entender que há empreendedorismo no terceiro setor. Há gestão, inovação, tomada de decisão e responsabilidade com resultados. Existe um esforço contínuo para equilibrar impacto social e sustentabilidade. E, acima de tudo, existe a escolha diária de seguir, mesmo diante de desafios complexos. 

A desigualdade ainda traz barreiras profundas, e o acesso a oportunidades segue sendo distribuído de forma limitada. Ainda assim, há um movimento consistente e transformador, que nasce nos territórios, nas relações, na construção de confiança e na abertura de caminhos onde antes havia ausência. 

Talvez o ponto não seja discutir se o terceiro setor é importante, mas reconhecer que ele já é parte essencial da transformação e que ampliar esse impacto depende de uma decisão coletiva. 

No fim, não se trata apenas de apoiar iniciativas sociais. Trata-se de escolher que tipo de sociedade queremos construir, quais oportunidades queremos ampliar e qual futuro estamos, de fato, dispostos a viabilizar para as próximas gerações.

Escrito por Dagmar Rivieri, fundadora e presidente da Casa do Zezinho

Fonte: VCRP

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